Tudo é sempre claro e definido? Claro que não, a vida mesmo é o oposto disso.
Mas às vezes me pergunto se estamos, mesmo, quase sempre, tão cegos aos sinais que anunciam claramente mudanças, ou se, inconscientemente, fingimos que não os enxergamos por medo de ter que agir. Talvez seja mesmo mais fácil nos lamentarmos, depois, e fingir-nos surpresos, do que tomar alguma atitude, antes, para tentar impedir a mudança.
Bem sabemos que nem todas as pessoas expõem clara ou verbalmente suas dificuldades, o que lhes desagrada, o que, muitas vezes, torna sua permanência em uma relação algo inviável. Há pessoas, digamos, mais explícitas. Falam, reclamam, gritam, brigam. Há outras mais introspectivas, reservadas. Sentem, guardam, sofrem e dão apenas sinais, sugerem, insinuam, tocam no assunto de forma geral, como se impessoalmente. É a única maneira que têm de se expressar sobre o problema. Mas curioso é o fato de que, embora possa parecer mais fácil conviver com este último tipo – e no dia a dia até pode mesmo ser –, no decorrer de uma relação, com certeza é mais trabalhoso e difícil, porque temos de estar mais atentos aos sinais que esta pessoa dá, se quisermos de fato mantê-las (a relação e a pessoa).
É comum escutarmos histórias – quando nós mesmos não a vivemos - de relacionamentos que terminaram ‘assim... de repente... de uma hora para outra!’ – dizem os assustados. Mas será mesmo que não foram dados sinais, muitas vezes até bem claros do que estava errado na relação? Será que o ‘surpreendido’ não percebeu o que teria de fazer, ou até mesmo de parar de fazer, para que as coisas não chegassem a um final?
Penso que muitas vezes confundimos sutileza com passividade e/ou insensibilidade, incapacidade de tomar atitudes, de se posicionar. E com isso não percebemos que, como gotas d’água, insatisfações ignoradas– mesmo que tenham sido apenas sinalizadas- acabam por fazer o copo transbordar e inundar tudo que já foi construído. Talvez estejamos acostumados demais a receber tudo como se fossem imagens, prontas – e como se imagens também não trouxessem em seu corpo o oculto, ou o semi-escondido, ou o insinuado.
Mas, como em um texto, que se multiplica em sentido e efeito a partir de suas entrelinhas, a vida também pode emergir, com mais intensidade e verdade, do que é apenas sugerido.
Seria melhor, então, que estivéssemos mais corajosamente atentos aos sinais para que o explícito não acabe por nos deixar pra trás.