domingo, 21 de agosto de 2011

E PONTO FINAL

Por mais que sejamos acomodados, vamos nos deparando, ao longo da vida, todos, inevitavelmente, com inúmeras mudanças. E isso não é novidade alguma. São mudanças físicas, mudanças interiores, mudanças que escolhemos e as que nos são impostas pelos outros ou pela própria vida. Mudanças que acontecem sem que nos demos conta, mudanças que simplesmente nos devastam, e outras que só vamos entender e até valorizar depois de passado algum – quem sabe muito – tempo. Mudanças que sabemos necessárias mas que nos são difíceis – para alguns, até mesmo impossíveis – de realizar, mudanças repentinas, mudanças ousadas.
Mas o que anda rondando meus pensamentos, especialmente, e que divido aqui com vocês, é a dificuldade que às vezes temos em enxergar que mudamos sempre de uma situação para outra, e não para o nada. Mesmo que sintamos um certo vazio em determinados casos, este vazio é uma nova situação e dever ser encarada de frente, para que possamos, de fato, seguir ‘em frente’ e construir o novo.
Percebo que há casos em que demoramos a romper realmente com o que antecede a mudança, com o ‘velho’. E acabamos acumulando rastros e restos de situações que já azedaram, que já são velhas, passadas. E o pior é que, por este motivo, muitas vezes deixamos de enxergar as novas possibilidades, de tirar o máximo do novo que se apresenta e até mesmo corremos o risco de jogar pela janela o que já começou a se delinear. Esses rastros e restos, como uma simples gota de limão em um litro de leite fresquinho, podem ter certeza, são capazes de azedar todo o caminho adiante.
Como se seguíssemos na linha do tempo do caminho da vida – pois não há outra opção – mas andando de costas, olhando para trás, para o que já se foi e não é mais. Ao invés de olharmos pra frente e buscarmos os novos alicerces pra uma nova construção. Trazer aprendizados do que já vivemos para o nosso presente, sim. Andar de costas, NÃO! Andar de marcha à ré na vida atrasa nosso próprio percurso, atrapalha os outros e ainda dificulta o desvio do abismo.
Tudo na vida demanda esforço – impossível, para mim, pensar o contrário – e colocar um ponto realmente final no que, se teve de mudar é porque já passou, é um esforço cuja recompensa vale sempre a pena.
A vida só anda, se pra frente!

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

COISAS DE ESPELHO

Na clássica história infantil da Branca de Neve, a madrasta pergunta sempre ao espelho se há mulher mais bonita do que ela e ele é obrigado a responder que não. Já na vida real e adulta, não temos um espelho a nosso favor e o objeto que é símbolo de vaidade passa a ser ameaça. O espelho já não diz o que queremos ouvir, mas, sim, o que a imagem mostra. E esta imagem muitas vezes nos é desagradável. Logo passamos a evitar o espelho. Em outras palavras, a nos evitar.

Muitas pessoas só se deixam fotografar de lado, ou só de frente, porque sabem que são mais fotogênicas, se vistos deste ângulo. Pensemos neste fato como uma metáfora. Será que só mostramos o nosso lado que sabemos mais simpático? Ou será que fazemos em público as coisas que achamos que fazemos bem para que a nossa imagem – na verdade parcial, é claro – seja apreciada pelos outros?

Assim como, às vezes, depois de uma semana de guloseimas, evitamos a balança para não vermos confirmado em números o que, obviamente, já sabemos, nós evitamos também os vários espelhos que surgem diariamente a nossa frente. Disfarçamos, cinicamente, como se não estivéssemos nos vendo. Sabe quando você não quer cumprimentar um conhecido e finge que não o viu, ou até troca de calçada, para não ter que ser forçado a falar com ele naquele momento? É a mesma coisa. Nós, de certa forma, somos este conhecido desagradável do qual tentamos nos esquivar na rua.    

Há ainda uma imagem pior, a do credor. Basta ouvir a palavra credor, para sentirmos uma sensação desagradável, mesmo que nunca tenhamos tido dívidas. É uma associação que habita o nosso subconsciente. Se devêssemos de fato, então... talvez fizéssemos de tudo para escapar do constrangimento de sermos cobrados e de admitirmos nosso erro.

E, afinal, o que é um espelho se não um cobrador que bate à nossa porta e nos olha de frente, sem direito à fuga? E, aí, como responder a si mesmo?

O espelho não aceita mentiras.

domingo, 14 de agosto de 2011

NOSSOS PAIS

Rio, 13 de agosto de 2011

A televisão anuncia: ‘amanhã é o Dia dos Pais’.
Não sou nada ligada nestas datas criadas...mas não sei não...‘Amanhã é o Dia dos Pais!’, outro anúncio grita novamente...

Ah é?! Então, tá!
Pois amanhã vou fazer um almoço.
E um almoço muito especial!

Um almoço para os pais
que já não estão e-x-a-t-a-m-e-n-t-e  aqui,
mas estarão s-e-m-p-r-e aqui.

Pais que marcaram nossa vida, pelo dna, ou pelo gesto.
Pais que, mesmo com suas fraquezas e erros, foram fortes o suficiente para tentar nos orientar sem nos impedir de viver.

Pais cujas lutas de uma vida toda escreveram histórias de persistência e paciência.

Pais que, se faltaram em beijos ou abraços, em carinhos ou afagos (se não, melhor ainda!), esbanjaram em exemplos de esforço e coragem.

Pais que tentaram, que se preocuparam, que integraram à sua inevitavelmente complexa, pois humana, existência, a responsabilidade de tentar fazer de nós o que achavam que era o melhor.

Pais que se tornaram parte de nossa alma; em pequenas ou grandes porções, em leves ou profundas camadas, como canto de beija-flor ou rugido de leão.

Pais que se fizeram pais por nós e em nós se eternizaram. E por isso surgem, vivos: num café, num livro, num jogo, numa música, num sorriso, numa lágrima, num instante, num sonho, num almoço...

Sim, amanhã farei um almoço muito especial para todos os pais, que estarão à mesa conosco, mas não mais sentados à nossa frente porque estão mesmo é dentro de nós, para sempre.

domingo, 7 de agosto de 2011

NÃO, A VIDA NÃO FICA PARA DAQUI A POUCO!

Quem um dia não ficou satisfeito por estar chovendo e, portanto, ter uma boa desculpa para não sair? Só que esta saída, na verdade, significava algum prazer, como ir a um passeio, à praia ou ao cinema. Ora, por que ficaríamos satisfeitos em não fazer algo que, a princípio, seria a realização de um desejo? É estranho, mas é verdade, às vezes acontece, e praticamente com todos nós.

A questão que interessa é: por que usamos tantas desculpas, como por exemplo a chuva, para não agir? E mais ainda: por que queremos não agir, se a vida se dá justamente nas ações, mesmo que pequenas e simples?   Por que queremos nos poupar da vida, atrás de uma vidraça, olhando a chuva que cai e falsamente lamentando não podermos ir à praia, onde nadaríamos, pegaríamos sol, conversaríamos com os amigos e apreciaríamos a paisagem?

Resposta número um, mas não única: temos a tendência à autossabotagem e esta ocorre em diversos níveis. Ficar em casa em dia de chuva é só um deles, e não é o mais grave, claro.

Resposta número dois: a lei da inércia. A vida em recintos fechados nas grandes cidades acostumou o corpo e a mente a espaços pequenos e, como já foi dito, fechados, limitados. A insegurança das ruas enxota cada vez mais o cidadão para as quatro paredes. Repare que, desacostumado de se mover, o corpo, assim como a mente, tem dificuldade de movimento, preferindo, normalmente, não fazer esforço.

Quantas vezes nos acomodamos no que até chamamos, para adoçar a situação, de preguiça e afirmamos que hoje não, mas da próxima vez iremos à praia, ou teremos mais tempo para o bate-papo com os amigos. Da próxima vez estaremos mais bem dispostos para uma caminhada ou nos prepararemos melhor para este ou aquele programa cultural... Mas hoje, evidentemente, não podemos.

Não! ‘A próxima vez’ não é mais esta vida. E talvez não seja outra. Movimentar-se e assistir um pôr-do-sol, ao vivo, no Arpoador, por exemplo, pode, muitas vezes, iluminar mais caminhos do que os tantos e tantos watts que clareiam os cômodos por detrás de suas janelas. E se chover? Que tal um fondue com os amigos, ou uma bela sessão de cinema? Sim, hoje!

A vida não espera!

DA ARTE DE SE AGRADAR

Seja qual for nossa atividade profissional, sempre nos deparamos com pessoas que pensam de forma diferente da nossa ou até mesmo oposta a ela. Isto faz parte da rotina do trabalho, e por que não dizer da vida. Não podemos esperar uma aceitação unânime, nem devemos nos melindrar, quando escutamos críticas ou censuras ao que fazemos, pois nós também somos permanentemente críticos dos outros.

Logo, não devemos achar que uma opinião contrária seja algo pessoal, dita para nos magoar ou nos aborrecer. Além do mais, não necessariamente o nosso ponto de vista é sempre o mais certo ou o mais adequado. É importante acreditarmos no que pensamos, mas isto não é garantia de que nosso modo de pensar seja o melhor ou o único possível.

É preciso que estejamos sempre abertos a novas e diferentes ideias e opiniões, mesmo que elas acabem por nos deixar ainda mais seguros quanto às nossas. Podemos, muitas vezes, aprender com os outros e reformular nossos pensamentos e crenças sobre vários assuntos, inclusive sobre nosso próprio ofício.

Se nosso trabalho, por exemplo, tem uma relação direta com o público, como ocorre com artistas e jornalistas, a receptividade e a opinião alheia são elementos imediatos. Os comentários e críticas surgem logo que a música, o texto, a peça ou o artigo são lançados ao mercado. Em pouco tempo sabemos se agradamos ou não, a esta ou àquela classe ou faixa etária etc, o que não se dá com a maioria das profissões. Por isso, dizemos muitas vezes que determinado autor escreve comédias pensando na resposta do público ou que aquele compositor faz músicas fáceis, para ter uma venda maior...

Mas a realidade é que, seja qual for nossa atividade profissional, sempre queremos, e até precisamos, agradar a alguém. E não conseguiremos nunca agradar a todo mundo. Sempre haverá quem discorde de nós, o que é esperado, e não deve ser visto como um mal.

O que não podemos é nos desagradar, sob o risco de não nos reconhecermos e de nos dispersarmos. Agradar a si mesmo não deve ser entendido como um ato egocêntrico, mas como autorrespeito.

Tanto não devemos defender ideias ou assinar textos com os quais não nos identificamos, como não devemos assinar os dias que não vivemos com a intensidade e a verdade que merecem.

A vida deve ser sempre uma obra autoral.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O DIA A SEU ALCANCE



Era domingo de outono e fazia sol. Mal abri a janela, a lembrança da floresta da Tijuca entrou. Há tempos não a frequentava. Liguei para uma amiga que aceitou bem a ideia do passeio. Saímos depois do café, sem levar o jornal. Sentia falta da natureza, não de reportagens sobre o mundo. Queria o mundo matéria, não a sua versão a serviço de algum interesse. Houve uma época em que eu costumava ler o jornal de domingo na praia, ou em algum ponto tranqüilo e verde da cidade. É curioso como os hábitos surgem e se vão, muitas vezes, sem que percebamos. Bem, mas o que sei é que domingo passado, então, escolhi caminhar, respirar o ar puro da floresta, sentir a energia das árvores, apreciar as variações da natureza.

Sem a menor dúvida, somos privilegiados por morar em uma cidade que possui uma floresta desta extensão e relativamente tão próxima a vários bairros. Quem pode, vivendo em uma área urbana, estar dentro de uma floresta, em cerca de trinta minutos? Nós! Acontece que, como podemos, acabamos nos esquecendo de fazê-lo. Sabemos que, a qualquer momento, podemos pegar um carro ou mesmo um ônibus e ir até lá, pois ela estará sempre à nossa espera, e, de preferência, ensolarada. E é justamente por isso que acabamos nos esquecendo dela.

Lá, sentada, à beira de um lago, apreciando as vitórias-régias, perguntei-me por que levava tanto tempo para voltar à floresta, sendo ela tão perto e tão agradável. Após três horas de passeio, com direito à caminhada, banho de cascata, descanso, reflexão e bate-papo, descemos revigoradas para a cidade, com a promessa, para nós mesmas, de voltarmos no domingo seguinte.

É claro, alguns de nós preferem a agitação da metrópole e até sentem-se melhor nos centros das grandes cidades, mas e você? Pense bem! Onde se encaixa? Se quiser descobrir ou se já souber que, como eu, tem na natureza uma grande fonte de vida, é hora de agir. Pode ser que em sua cidade não haja uma floresta como a da Tijuca, nem um grande parque como o Ibiapuera ou mesmo um ‘Central Park’, mas deve haver algum parque menor, uma praça, uma cascata, um lago, ou qualquer outro lugar onde você possa estar em contato com o verde. Você pode visitá-lo no próximo domingo, e quem sabe mesmo criar o hábito de frequentá-lo aos fins de semana ou, ao menos, com uma certa regularidade. Você logo perceberá como isto vai lhe fazer bem e como as semanas poderão ser vividas com mais energia e harmonia.

De minha parte, da floresta, trouxe, além do ar novo nos pulmões e da paisagem nos olhos, três perguntas fundamentais: por que não fazemos coisas tão simples e que nos dão tanta satisfação? Por que estamos sempre querendo ir para onde supomos esteja a vida? Por que não vemos que, a cada dia, a vida está a nosso alcance?