Na clássica história infantil da Branca de Neve, a madrasta pergunta sempre ao espelho se há mulher mais bonita do que ela e ele é obrigado a responder que não. Já na vida real e adulta, não temos um espelho a nosso favor e o objeto que é símbolo de vaidade passa a ser ameaça. O espelho já não diz o que queremos ouvir, mas, sim, o que a imagem mostra. E esta imagem muitas vezes nos é desagradável. Logo passamos a evitar o espelho. Em outras palavras, a nos evitar.
Muitas pessoas só se deixam fotografar de lado, ou só de frente, porque sabem que são mais fotogênicas, se vistos deste ângulo. Pensemos neste fato como uma metáfora. Será que só mostramos o nosso lado que sabemos mais simpático? Ou será que fazemos em público as coisas que achamos que fazemos bem para que a nossa imagem – na verdade parcial, é claro – seja apreciada pelos outros?
Assim como, às vezes, depois de uma semana de guloseimas, evitamos a balança para não vermos confirmado em números o que, obviamente, já sabemos, nós evitamos também os vários espelhos que surgem diariamente a nossa frente. Disfarçamos, cinicamente, como se não estivéssemos nos vendo. Sabe quando você não quer cumprimentar um conhecido e finge que não o viu, ou até troca de calçada, para não ter que ser forçado a falar com ele naquele momento? É a mesma coisa. Nós, de certa forma, somos este conhecido desagradável do qual tentamos nos esquivar na rua.
Há ainda uma imagem pior, a do credor. Basta ouvir a palavra credor, para sentirmos uma sensação desagradável, mesmo que nunca tenhamos tido dívidas. É uma associação que habita o nosso subconsciente. Se devêssemos de fato, então... talvez fizéssemos de tudo para escapar do constrangimento de sermos cobrados e de admitirmos nosso erro.
E, afinal, o que é um espelho se não um cobrador que bate à nossa porta e nos olha de frente, sem direito à fuga? E, aí, como responder a si mesmo?
O espelho não aceita mentiras.
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